sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Pe. Nuno Afonso



Moçambique









Poiares

Conheci o Pe. Nuno por volta do ano de 1989 quando entrei no Colégio Salesiano de Poiares. Penso que já lá estava há dois anos.
Foi meu professor de música e director escolar nos dois anos que frequentei o colégio. Eram bem conhecidos, por todos os alunos, que o conheceram, os grandes conhecimentos de Música, Matemática e de Francês, que o Pe. Nuno possuía, principalmente a Francês. Li no Blog dos antigos alunos Salesianos de Moçambique (http://cdbosco-lm.blogspot.com/ ) de testemunhos em que Pe. Nuno punha os alunos de pé e perguntava os verbos em Francês. Pois em Poiares aconteceu o mesmo. Comigo também só que em vez de ser os verbos de Francês era os tempos das notas da disciplina de música. Boas recordações.

Sendo eu de Poiares e após a conclusão do 6º ano (Até à altura o colégio só tinha até ao 6º ano. Após a minha saída começou a ter, progressivamente até ao 9º ano. Logo andei desfasado 1 ano.) fui estudar para a Régua.
Apesar de mudar de escola não mudei o hábito de nos tempos livres, principalmente aos fins de semana, frequentar a minha segunda casa, o colégio de Poiares. E quem estava lá para nos receber? O Pe. Nuno, claro.

Foi por volta dessa altura que o ringue de patinagem foi construído e foi nessa altura, também,  que nasceu o hóquei em patins em Poiares pela mão do Pe. Nuno. 
Os alunos do colégio começaram a patinar com os patins que o Pe. Nuno comprava ou com os patins velhos enviados pelos Salesianos do Estoril, através do Pe. Miguel, já conhecido por todos pelo seu contributo ao hóquei português. Foi-se, então,  formando um grupo de hóquistas do melhor que passou em Poiares. 

A minha aventura no hóquei começou também nesta altura. Sendo eu ex-aluno, mas frequentador assíduo da casa  comecei a patinar nas férias de Verão. No ano lectivo seguinte começou a formar-se duas equipas no colégio. Uma de alunos internos e outra de alunos externos e ex-alunos incluídos, dos quais eu, o meu irmão Simão  e meu primo Xavier se incluíam. Sem me esquecer do Zé Manuel, Álvaro, do "Xico", do Artur, do Tiago (o primeiro a saber patinar de Poiares), do Beto e outros mais dos quais se incluíam raparigas que também sabiam patinar, mas que irei contar mais tarde.
Nessa altura os internos só iam a casa nas férias de Natal, da Páscoa e de Verão, a não ser por motivo maior. Assim às Sextas feiras à noite e aos sábados à tarde,estávamos todos juntos a jogar  durante horas seguidas. Sempre orientados pelo Pe. Nuno. Só tínhamos direito ao setique depois de sabermos andar bem para a frente, à retaguarda e travar. 

Antes de continuar, a contar a história do hóquei em Poiares, gostaria de fazer uma pequena pausa e contar um pouco das condições existentes em Poiares.
O nosso ringue ainda é o mesmo, ou seja, de cimento. Mas, os patins da altura é que davam que falar. Toda a gente sabe que o hóquei em patins é um desporto muito caro. E, em Poiares nem todos tinham condições para adquirir uns patins. Só os mais abastados, tinham patins próprios de boa qualidade. Daí a importância que teve o Pe. Nuno na compra de quase todo o material existente na altura e que ainda é usado. E ,também, a ajuda importante do Pe. Miguel com o envio de material obsoleto e "estragado" e outro de boa qualidade dos Salesianos do Estoril. Poderão perguntar para que servia o material obsoleto e estragado. Bem, nessa altura, o Pe. Nuno "reciclava" tudo. E passo a explicar.
Muitos dos setiques  do Estoril vinham partidos. Em Poiares eram "reciclados" com duas "tachas" de madeira pregados com pregos de ambos os lados. Era posta fita adesiva por cima e estava pronto para ser usado. Assim tínhamos um "Reno internacional" e "world champion" como "novos". E ficaram tão bons que ainda hoje temos alguns. Lembro-me em especial de dois setiques muito famosos na altura. Eram as "mocas". De pequenos troncos de árvore o Pe. Nuno fez dois setiques um dos quais foi o meu primeiro "setique". Não se podia jogar com bolas de hóquei, pois após uma seticada ficávamos a "vibrar" (LOL). Por isso jogávamos com uma bola de ténis que ainda existe. Foi a partir dessa altura que os setiques com "remendos" começaram a ser chamados "MOCAS" (lol). E os patins?
Os patins é que davam, e dão trabalho. O modelo dos meus primeiros patins eram do tempo do Francisco Velasco e do Fernando Adrião. Aquele pedaço de madeira onde se pregava o pneu/travão, quem se lembra? Digo isto com orgulho. Tinham umas rodas pequenas de guarda redes para não "malhar" tanto. Ainda temos alguns a funcionar. Os travões é que dão trabalho a pôr. Tínhamos e temos ainda algumas bases de alumínio em que as botas eram e são botas de trabalho do campo. Formas que o Pe. Nuno arranjava para que mais miúdos pudessem usufruir deste desporto fantástico. E conseguiu. 


Mas continuando com a nossa história.
Desse grupo inicial nasceu um jogo com o, já extinto, grupo de Vila Pouca, Vila Real. Penso que seriam os únicos grupos de hóquei em Vila Real da altura, apesar de Poiares não ser federado. 
Em 1995 realizam-se em Portugal, mais propriamente no Estoril, os Jogos Internacionais Salesianos. A modalidade de hóquei em patins estava incluída, com a participação de quatro equipas, a saber: Macau (ainda pertencia a Portugal), 2 equipas do Estoril, uma das quais ganhou os jogos e Poiares. Eu tive a sorte de participar, apesar de não ser aluno e sim ex-aluno do colégio. Fruto do castigo a uma parte da equipa de hóquei que fez asneiras e assim permitiu-me participar nesses jogos. Este foi o momento mais alto do hóquei em Poiares e o meu pois, foram os únicos jogos que fiz com outras equipas. Ainda por cima em piso de madeira algo que nunca tínhamos experimentado.
Após a saída desta malta do colégio o hóquei foi perdendo, pouco a pouco, a sua vivacidade apesar de nunca ter deixado de praticar. O bichinho ficou.


Mas a presença do Pe.Nuno em Poiares não se limita ao hóquei em patins. Quem não se lembra das suas histórias hilariantes dos seus tempos em Moçambique, Vila do Conde e outros tantos sítios por onde passou que nos punha a boca aberta para no fim rimos às gargalhadas. Lembram-se da expressão: - "Quero falar com o Sr. Bispo".(LOL). 

E os "Campos de férias" do Pe. Nuno?
A rotina diária das férias de Verão eram muito preenchidas.
Para os mais velhos como eu, o meu irmão, o meu primo e outros amigos, o dia começava de manhã com a ida ao rio da "Passagem", Vila Real, com pás, picaretas, ferros e enxadas para plantar árvores e compor o rio. À tarde o Pe. Nuno pedia emprestada uma camioneta de caixa aberta ou ao Sr. Alfredo Costa ou ao Sr. Heitor Varandas. Depois metia à volta de 50 rapazes e raparigas dentro da camioneta com o respectivo lanche para cada um e lá íamos todos tomar uma "banhoca" ao rio e passar uma boa tarde de Verão. Na altura o colégio tinha cerca de 20 bicicletas. Quando havia gente a mais para o espaço da camioneta lá iam os mais velhos de bicicleta para dar lugar os mais novos na carrinha. Acontecia isso muitas vezes. Ao fim do dia regressávamos a casa e jantávamos com as famílias para depois do jantar voltar ao
colégio para patinarmos ou jogar hóquei. Havia alturas que estavam no ringue cerca de 40 a 50 rapazes e raparigas a patinar e a jogar à apanhada. Sempre com o Pe. Nuno presente a aturar as nossas traquinices. Conto um episódio particular em que num desses dias, com a carrinha cheia de jovens, fomos parados pela brigada de trânsito. Pensamos todos: "O Pe. Nuno está tramado. Vai apanhar uma "castanhada". 
Apresentou os documentos e explicou aos agentes o que fazia com tantos rapazes e raparigas numa camioneta. Ao ver os documentos de sacerdote salesiano, ouvir o motivo altruísta de tamanha infracção os agentes mandaram-nos seguir alertando-nos para ter cuidado para que a viagem corresse bem. E assim foi, graças a S. João Bosco, o Pe. Nuno livrou-se de boa. 

Para além disso o Pe. Nuno ajudou muitos jovens com vários problemas sociais e económicos. 
Com o passar dos tempos tudo se foi perdendo. Os mais velhos foram saindo, a ligação do colégio também se foi perdendo, os mais novos começaram a ter outros recursos, principalmente tecnológicos, que os atraíam mais. E assim se foi perdendo uma época maravilhosa.
Atrevo-me a dizer que foi um pai para todos estes jovens que já se casaram e muitos até já têm filhos. Pessoalmente foi um pai, visto ter sido órfão de pai aos 9 meses. 

Quem não tem saudades desses tempos?

Após esses tempos fantásticos o Pe. Nuno foi "matar" saudades a Moçambique e penso que esteve lá cerca de um ano, para depois voltar a Poiares onde se encontra actualmente.Hoje em dia tem certas limitações físicas mas a motivação encontra-se igual, sempre pronto a ajudar os jovens. 

S. João Bosco disse que o sistema salesiano é um sistema preventivo, que os educadores devem estar sempre presentes e combater o ócio dos jovens que é o pai de todos os vícios. O Pe. Nuno foi e continua a ser um bom exemplo  desse verdadeiro espírito salesiano.
Foi, e é através da sua presença, do seu exemplo e dos seus conselhos que muitos jovens, eu inclusive, nos tornamos melhores cidadãos e melhores cristãos





Muito Obrigado, Pe. Nuno!



Óscar Cruz                                         


Fontes:
IMAGENS Moçambique:  http://cdbosco-lm.blogspot.com/ 
IMAGENS CSP: Colégio Salesiano de Poiares

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